segunda-feira, fevereiro 04, 2013

Era o homem de trincheiras

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Aos repararmos os panfletos de guerra do século XX, sejam impressos, radiofônicos ou audiovisuais, veremos que a promessa é de um ingresso na primeira fileira de uma ópera wagneriana. Tudo é grande, triunfante e necessário. O cinema e os quadrinhos foram os principais expoentes dessa estética nas artes – em ambos, guerra é um gênero facilmente identificável, muitas vezes se aproximando do heroísmo. No entanto, já que há interesses mais incontornáveis nos panfletos de guerra, é justamente pela arte que podemos encontrar outras visões, as vezes diametralmente opostas. É o caso de Era a Guerra de Trincheiras, de Jacques Tardi.

Originalmente publicada na França em 1993, Tardi se concentra na primeira guerra mundial, principalmente na vida entrincheirada, aquela que se tornou talvez a imagem mais forte desse conflito – já que desde a segunda guerra, os combates são muito mais móveis. Porém nos anos 1910 as conquistas se davam trincheira por trincheira, sendo o objetivo do adversário tomar a primeira linha de defesa oposta e vice-versa. Entre as duas primeiras frentes inimigas, havia a no mans’s land, a terra de ninguém, cheio de barro, arame farpado, destroços e cadáveres, fossem velhos ou novos. Era nesse lugar que eventual incursão acontecia, muitas vezes ampliando os dejetos ali dispostos.

Tardi assume o recorte francês contra os alemães, não pela legitimidade de um lado, mas pela sinceridade de uma perspectiva, seja do seu avô que era um veterano, seja pelo grosso da pesquisa que demonstra ter feito. Com a exceção da primeira estória chamada O Buraco da Ogiva (publicada originalmente uma década antes), todas as outras pequenas estórias seguem o padrão de três quadros horizontais por página. O efeito, junto ao preto e branco e o uso de retícula, garante uma solenidade cinzenta triste, um ritmo imutável, uma rotina vazia - mas absolutamente formal.

É precisamente nesse ponto que vamos de uma ópera wagneriana para um brinquedo infantil de músicas tristes repetitivas. A guerra não é nada estupenda, nem sequer grandiosa. É pequena, tediosa e um tanto despropositada. Nas diferentes estórias vemos crônicas como a do sujeito que odiava seus vizinhos e tem que lutar e morrer numa guerra que supostamente se faz em nome deles, ou do francês e do alemão que exauridos toparam uma apática trégua (e por traição foram executados), ou ainda do soldado que, como muitos, tentou gangrenar a própria coxa para receber baixa e acabou morrendo. Também merece ênfase ainda maior no despropósito as várias colônicas africanas e asiáticas que enviaram homens para ali morrerem em nome de uma nação da qual eles não faziam parte.

Das pequenas imagens, como o pé atravessado na trincheira que servia de gancho para um balde, às grandes imagens, como a população bradando em nome da guerra como uma confraria de destemidos, dispostos a comprovar sua macheza - em todos a guerra vai perdendo qualquer sentido, qualquer capacidade de atribuir sentido à uma ação. Começamos querendo dar uma lição, ansiamos vencer, depois só matar, após somente sobreviver e por fim desejamos que acabe isso tudo logo, seja pelo cessar fogo, dispensa ou pela própria morte. Nada importa mais.

Por isso a trincheira é uma imagem poderosa. Um buraco no chão onde homens se arrastam em situação precária no meio dos restos de tudo. A trincheira é a cova com um corpo sem a proteção de um caixão, é o lixão para onde vai tudo aquilo que nos perturba e não queremos ver. O luto na trincheira não é pela perda, mas pelo horror ao morto que ainda se move, respira e eventualmente luta – o morto que é morto porque não sabe mais sonhar, nem sequer entende o que é viver. Um homem que era.

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Era a Guerra de Trincheiras, de Jacques Tardi, saiu no Brasil em 2011 pela editora Nemo, numa grande e bonita edição capa-dura por um preço relativamente acessível. A edição vem com alguns textos de Tardi e suas vastas referências de pesquisa sobre a primeira guerra mundial. Ainda pode ser encontrado nas livrarias sem muito conflito.


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