sexta-feira, janeiro 06, 2012

O Espaço em Eisner

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Eis um desafio: escrever algo sobre Will Eisner sem cair no lugar comum. Talvez nem haja mais o que dizer sobre o grande quadrinista americano, responsável por inovações na linguagem dos quadrinhos nos anos 1940 com as aventuras de “The Spirit”, propulsor do termo Graphic Novel em 1978 com “Um Contrato com Deus”, teórico defensor dos quadrinhos e autor de muitos outros trabalhos de grande relevância até, bem dizer, o dia de sua morte, em 2005, aos 87 anos. Mas teimo em teimar. 

Muito já foi escrito sobre o fascínio de Will Eisner com a cidade. Mais do que isso: sobre o espaço, geralmente urbano, e em como ele nos forma e nós o formamos. Isso se dá com grande intensidade na trilogia “Um Contrato com Deus e Outras Histórias de Cortiço” de 1978, “A Força da Vida” de 1988 e “Avenida Dropsie: A Vizinhança” de 1995. Enquanto o primeiro pontua por quatro estórias a vida dos cidadãos da avenida Dropsie do Bronx nos anos 1930, e o segundo explora no mesmo espaço e tempo tais condições de vida imersas ao universo urbano em plena intensidade na grande depressão, é no terceiro que Eisner se dedica exclusivamente à história da avenida, do século XIX a um futuro próximo, formada por personagens peculiares que constituem uma vizinhança através dos tempos assombrada pelas ruas, casas e prédios onde viveram.

Na introdução do terceiro volume Eisner repete algo que se torna manifesto em outra obra sua, “O Edifício” de 1987: os prédios são vivos porque somos o coração desses lugares. De certa forma então constituímos o que bombeia movimento (e por isso vida) nas veias/corredores desses gigantes de pedra. Se o ambiente de alguma forma nos influencia, Eisner apela para o poder que temos para também influenciar aquilo que nos rodeia. Por isso a temática da vizinhança é tão cara a ele: é o coletivo formado por imensas pluralidades (de culturas, etnias, escolhas) que no final definem o espaço. 

Somos bárbaros, portanto. Ao mesmo tempo em que devastamos um lugar, erigimos outro somente com nossa presença. Em “Avenida Dropsie: A Vizinhança” vemos passo a passo como populações inteiras geraram a ruína da anterior. Cada povo que se estabeleceu foi esmagado pela presença do outro, dos holandeses aos ingleses aos irlandeses aos italianos aos judeus aos hispânicos aos afro-americanos. Quando falo ruína não quero dizer extermínio ou violência voluntária, mas a mera influência que temos em qualquer lugar ao manifestarmos nossa língua, nossos costumes e nossos valores. 

É recorrente na estória vermos culturas que sabemos que trituraram a anterior se queixar de desrespeito às tradições ao ver uma nova cultura avizinhando-se. A tradição em Eisner, portanto, se torna sempre uma invenção do tempo presente, nunca do tempo passado. Aquilo que chamamos de tradição não começou ontem, começa sempre hoje na medida em que a manifestamos de uma ou outra maneira. Complicado, não? Toda manifestação cultural revela-se então uma manifestação bárbara, de completa barbárie, violação, apropriação do passado alheio na reciclagem de nosso presente.

Não por acaso a temática da morte é tão recorrente. Se nos primeiros trabalhos assistimos a morte (ou a iminência dela) em tantos personagens, na “Avenida Dropsie” observamos também a morte dos espaços: da lavoura que virou residência que virou cortiço que virou ruína. Os constantes casos de incêndio são emblemáticos, pois plasticamente belos e rompantes da sarjeta dos quadros, eles atraem consigo a ideia de um fogo purificador que encerra algo e exige obrigatoriamente um recomeço – tal qual a barbárie de uma cultura nova alojando-se sobre a sua.

Esse poder de uma diversificada vizinhança só se enriquece no traço de Eisner através das expressões, gestos e palavras tão peculiares de cada pequeno personagem diante das ruas, casas e prédios. Mais do que isso, Eisner põe em prática sua filosofia: nós deveríamos moldar nosso espaço como um desenhista de quadrinhos que desenha espaços públicos e privados com uma riqueza criativa única. A avenida Dropsie e todos seus objetos em Esiner são tão carismáticos e, ao mesmo tempo, passageiros quanto seus habitantes. Querem maior demonstração do poder de dar vida aos espaços do que este?

Eisner bombeia sangue humano nos decadentes corredores de um prédio como a tinta de um pincel sobre uma folha em branco. Um dos personagens mais recorrentes da avenida Dropsie, o advogado judeu Abie Gold que mesmo não sendo o homem mais justo do mundo, mesmo tendo feito parcerias que nos parecem vergonhosas e por vezes oportunistas, no final, ainda com suas estratégias questionáveis de sobrevivência, procurou salvaguardar o espaço e sua vizinhança até o último momento. Percebo ali uma identificação do também judeu Eisner que como o advogado, defendeu a revitalização do espaço da sua juventude nos anos 1930, com a diferença que foi por meio de uma história em quadrinhos.

O final cíclico, onde a primeira nova vizinhança da avenida Dropsie restaurada reclama dos novos moradores e seus estranhos hábitos (que os enquadramentos nos ocultam) reativa um ciclo sem fim. Quer me parecer que o lema final de Eisner é o seguinte: já que somos bárbaros, que nossa bárbarie seja a força da vida, a força de edificar vida, considerar, portanto, o nosso espaço como um ambiente vivo que merece nosso cuidado – mesmo na eminência da morte (sempre transformadora), seja de uma pessoa, seja de um edifício, seja de uma cultura.

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As três publicações “Um Contrato com Deus e Outras Histórias de Cortiço”, “A Força da Vida” e “Avenida Dropsie: A Vizinhança” saíram pela editora Devir. As duas primeiras num ótimo acabamento, a última nem tanto. Estão ainda disponíveis em livrarias. Já “O Edifício” saiu faz mais de duas décadas pela editora Abril e hoje encontra-se junto das estórias “Nova York: A Grande Cidade”, “Caderno de Tipos Urbanos” e “Pessoas Invisíveis” no encadernado de mais de 400 páginas “Nova York: A Vida na Grande Cidade” publicado em 2009 pela Quadrinhos na Cia. Valeria a pena dar continuidade a essas reflexões com essa coletânea. Quem sabe mais adiante eu arranje algum espaço aqui.




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