Vida e Morte Gavião
Em Dc universo, Gavião Negro, Geoff Johns, Super-heróis
O que eu acho bacana em super-heróis geralmente paira em volta da estória de ação, das belas mulheres e dos colantes justinhos. Há algo interessante em muitos personagens, algo que talvez escape até mesmo da intenção de seus autores, e que faça determinados personagens darem voos ainda mais altos. Um deles é o Gavião Negro.
O Gavião Negro (Hawkman, no original) hoje tá longe de ser um super-herói do primeiro escalão. Muitos não o conhecem e ele tem tido dificuldades sucessivas para emplacar uma revista mensal nos EUA nas últimas décadas. Uma dessas tentativas foi a hq de mesmo nome escrita inicialmente por Geoff Johns e James Robinson.
Dá pra escrever uma tese de doutorado sobre o Gavião (e sobre qualquer coisa), mas vou me ater naquilo que vejo de mais rico no personagem. Antes, porém, uma não-tão-breve sinopse: pra quem não conhece, Gavião Negro e Mulher-Gavião eram, respectivamente, o príncipe Khufhu e a princesa Chay-Ara do antigo Egito que tiveram contato com uma nave alienígena do planeta Thanagar. Ali conheceram o misterioso metal Enésimo, capaz de garantir força, agilidade, resistência, visão superior e, principalmente, voo. Um sacerdote invejoso do amor exuberante de ambos, Hath-Set, os assassinou com uma adaga forjada da mesma liga alienígena. Tal sacrifício praticado com forças além da compreensão gerou um ciclo eterno de reencarnações para as três almas. Estaria sempre a história condenada a se repetir. Herói conhece Heroína, Herói e Heroína se apaixonam perdidamente e por isso são mortos sempre de forma violenta pelo Vilão. Mortos, logo renascem. Cada vez numa cultura diferente – porém sempre sob o semblante da tradição thanagariana, o Gavião.
Até que chegamos na sequência de estórias em questão, onde atualmente o bem-educado arqueólogo Carter Hall é o herói Gavião Negro, consciente de seu passado, e a jovem órfã Kendra Saunders, a Mulher-Gavião, não se recorda. Mais complicado: Carter lembra do amor que sente por ela, Kendra não quer saber dele. Ambos têm motivos pra não insistirem na relação: sabem que serão mortos no momento em que consumarem seu amor. Os dois enquanto amigos e colegas se fixam numa cidade quente da Louisiana, administram um museu e se tornam heróis oficiais, tendo que enfrentar ao redor do mundo monstros mitológicos, criminosos interessados em artefatos mágicos ou alienígenas, e, mais do que tudo, consequências do vasto passado de ambos.
A mitologia espiritual da trama não consegue se filiar muito diretamente às religiões mais conhecidas. Pois somente as almas dos três reencarnam, enquanto a de todos os outros vai pra algum lugar (ou não) que eles nunca saberão - e isso os incomoda profundamente. Há uma beleza fundamental aqui: o que o Gavião Negro menos deseja é a vida eterna (da qual ele já é vítima). Há no personagem um profundo desejo de morte, e digo morte no seu sentido mais anti-espiritualista possível: morte como fim, encerramento, descanso material final. Acho que se o Gavião Negro acordasse no paraíso diria “porra, tô morto e ainda tô vivo!”. O que ele mais anseia é a morte eterna (e que ele sabe e o seu próprio filho, o herói Sr. Destino revelou, ele nunca conseguirá).
Interessante, não? Mas agora vem a virada mais fascinante. A estória deles, mesmo povoada de conflitos espirituais, é essencialmente e extremamente carnal. Até mesmo na aparência. O Gavião Negro sempre foi um herói assumidamente de peito cabeludo, alto, bonito e cabeça quente – um macho-alfa exemplar. Nos gibis são constantes enquadramentos super-sexualizados dele e da Mulher-Gavião em poses que só faltam o parceiro para acoplar. Essa tensão sexual (diria mais, carnal, visceral) também se reflete nas armas que eles empunham: maças, espadas, machados, enfim, qualquer coisa grande, pesada, afiada e ensanguentada. Quase quase um pênis duro de um cavalo lambuzado do himen de uma égua violentada! Quer imagem mais intensa da vida a ponto de ser insuportável?
Amor e guerra, da premissa espiritual se afirma, na estória do Gavião negro e da Mulher-Gavião, na sua completa carnalidade, no prazer, no desejo, na vida na sua total afirmação, vida esta condenada a nunca alcançar o mundo ideal, o plano espiritual (lugar este sempre visto como antítese da vida). Não é uma metáfora inquietante? Até que ponto somos todos Gaviões, esperançosos por serenidade e desejosos de uma vida tão desmensurada que o seu total êxtase só pode conduzir ao grito seguido do silêncio da morte sanguinária? Vida é sangue, morte é paz. O Gavião é o ciclo que se repete a todos nós: nascer, crescer, amar e morrer. Gavião somos muitos, Gavião é vida, intensa e amoral.
Enfim, há muitíssimos outros aspectos a refletir sobre o universo desses ricos Gaviões. Pena que há poucos autores que consigam tratar tais temas complexos com alguma maturidade, mais difícil ainda é isso acontecer dentro da opressão editorial dos gibis upa-upa de super-heróis e dificílimo é encontrar leitores a altura de tais reflexões. Fica o convite que façam este voo – e outros ainda maiores!
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A fase que li saiu no Brasil nas edições DC Especial (2, 9, 12 e 15) da editora Panini. Na primeira edição há um texto que ajuda a entender toda a estória prévia. São relativamente baratas e fáceis de achar em sebos ou em sites como estantevirtual e mercadolivre. Nos EUA tá pra sair em uma só edição esse mesmo período, inclusive com alguns arcos que aqui não saíram. A guarra tá coçando...











Para quem não acredita em representações, você deu um banho delas aqui. Ainda assim, ótima reflexão.
ResponderExcluirSobre a parte do "tô morto e ainda tô vivo!", tem muito de você nesse Gavião (tenho essa cena gravada). Aliás, a morte eterna que você citou não tem como ser um descanso, porque precisaria haver uma consciência que entenda o descansar. Por exemplo, a gente só percebe que o sono foi um descanso bom ou ruim quando acorda. E se for durante, apenas se estivermos sonhando (o que é um estado de subconsciência, e, portanto, de 'vida'). Se você considerar uma morte absoluta, não há descanso. Mesmo no cristianismo não existe a morte absoluta, ou se tem a vida eterna em paz, ou um consciente e constante "morrer" para sempre.
É... acho que o Gavião Negro é meio cristão, hehehe!
@Jhonny Colin Djonatha Geremias, o Gavião é cristão pacas, você foi modesto. Ainda assim, justamente pelo caráter desse personagem que inclusive menciona que com poucos pais ele já se deu bem, há nele uma espécie de vontade emancipadora de Deus, do Pai. De querer no final das contas ser o tutor de sua própria alma - por isso a aspiração do descanso inevitavelmente ligada à percepção em vida como tu tão bem elucidaste.
ResponderExcluirQuanto as representações, já discutimos isso por fora. Só acrescento no debate aqui: longe de mim ler o que supostamente representa o Gavião Negro, como seu eu tivesse decifrando a verdade do personagem. Meu intuito é fugir do representacionismo! O que quero é montar o quebra-cabeça uma hora de um jeito, outra hora de outro. Ler não é revelar, é inventar. Eu inventei um Gavião Negro aqui - e que não por acaso você me viu nele).
@Linck, não por acaso mesmo. As leituras que você faz das personagens de HQs me parecem leituras de ti mesmo (tipo a parte da emancipação do Pai). Talvez toda essa complexidade não esteja nelas, mas no teu enredo. [Fim do momento Freud]
ResponderExcluirEu realmente não conhecia a história do casal Gavião. Os assisti uma vez ou outra no desenho da Super Liga, no SBT. Mas fiquei curioso em conhecer melhor a parte do "sacrifício praticado com forças além da compreensão"! Hahah!
A propósito, parabéns pelo blog! [Fim do momento 'raso como uma galinha querendo parecer intelectual']
@Jhonny Colin, o bom para um roteirista é que um "sacrifício praticado com forças além da compreensão" (hahaha) permite que qualquer coisa incompreensível seja aceita. Essa é uma das magias das hqs de super-heróis que as vezes se perdem na era onde tudo tem que ser lógico, racional, explicadinho, etc. Danem-se, o absurdo também é estético - e permite estórias cheia de força além da compreensão.
ResponderExcluirMatéria muito bacana. Para ser sincero, eu prefiro as versões thanagarianas do casal Gavião, mas confesso que essa análise me fez vê-los com outro olhar. Nunca pensei na possibilidade do alter-ego de Carter Hall ser cristão hehe.
ResponderExcluirVendo essa interpretação dos personagens, me faz pensar em como a DC tem desperdiçado o potencial criativo da dupla. Toda a história de amor com uma pitada de tragédia, se bem trabalhada, seria um atrativo muito interessante para alcançar outros tipos de fãs, principalmente a audiência que gosta de histórias focadas nos relacionamentos dos personagens e romances "intensos".
Abraços!
Pois então @Spider-Phoenix, eu considero o Gavião Negro um dos personagens que tem lugar de destaque numa lista gigantesca de bons personagens muito mal explorados. Outros ainda pretendo comentar aqui no blog... Mas é aquela coisa, enquanto prevalecer o conservadorismo, as estratégias "garantidas" de venda e uma considerável mediocrização do leitor de hqs de super-herói, isso tende a mudar pouco ou quase nada.
ResponderExcluirAbração.
Não só a DC tem desperdiçado potencial criativo, @Spider-Phoenix, parece que o mundo inteiro! Hehehe! E sabe o que me lembrou? A nova saga Turma da Mônica Jovem, já viram? Eles são pré-adolescentes, mas vivem aventurinhas de espaço, em outras dimensões, ou em outras épocas, etc. Cara, como eu acho aquilo babaca... Sério. Em entrevista, o Maurício de Souza disse que a turminha 'cresceu' para acompanhar um publico já mais crescido. Mas pow, as histórias antigas da DC Marvel eram pra esse mesmo tipo de público, e as histórias não eram tão otárias... Quem emburreceu, a 'indústria das HQs' ou a geração de leitores dos quadrinhos? Eu digo isso porque o Sr. Maurício é bem reconhecido lá fora do país, e no Brasil o mangá dele é o mais vendido. Ou seja, ignorante ele não é. Ah, sei lá... acho que foi um desabafo, nada consistente nem intelectual.
ResponderExcluirCara, excelente texto fazendo uma análise de roteiros e argumentos de uma história em quadrinhos, percebendo metáforas e analisando os personagens, cenários e situações em um novo espectro.
ResponderExcluirTenho muita vontade de fazer um trabalho desse jeito, fazendo ligações com filosofia e fenômenos pop como quadrinhos e filmes.
Muito bom trabalho!
Agradeço os elogios @Leo Vasconcellos. Faço as relações que você apontou mais por vício do que talento. Pretendo manter essa linha - que é a principal razão desse blog existir - e espero contar mais vezes com sua participação.
ResponderExcluirAbração, Linck!
Sobre o Gavião Negro, confesso que nunca me identifiquei com suas histórias ou com sua participação na Sociedade da Justiça escrita pelo Geoff Johns, fase que acompanhei de perto quando lançada pela Panini na revista da Liga. O personagem parecia sempre deslocado, girando em torno dos mesmos motes relacionados às suas reencarnações. Por outro lado, achei bem interessante a personagem Mulher-Gavião retratada no desenho dos anos 2000 da Liga da Justiça. Carismática, fazendo a linha que não leva desaforos para casa e portando a sua maça, pode-se dizer que a personagem chegou mesmo a ofuscar a Mulher-Maravilha em popularidade.
ResponderExcluirOlá @Raphael Cavalcante, que bom vê-lo participando. Então, eu não acompanhei SJA, mas me parece que o Johns tem pelo Gavião um carinho bastante grande e com certeza pode ter atrapalhado andamentos onde ele aparece com "mero" coadjuvante.
ResponderExcluirSobre o desenho da Liga com a Mulher-Gavião, é divertido, mas no final vira só a alienígena pavio-curto. Muito dessa complexidade se perdeu...
Abração, Alexandre.
Ah, sim, Alexandre. Mas num desenho com tantos personagens não daria para se aprofundar muito na persona dele. Entretanto, ela teve bons momentos nas tramas que retratavam Thanagar, além do affair com o John Stewart. Além disso, eu acho que falta para o Gavião Negro um microuniverso pungente, histórias mais diretas. O reboot seria uma oportunidade para essa reconstrução do personagem, mas pelo o que li das críticas a qualidade se perdeu.
ResponderExcluirEntão, não tô por dentro ainda dessa reformulação do universo Dc, mas eu já achei a fase do Johns muito boa pro Gavião Negro, @Raphael Cavalcante. Por isso não sei se entendo quando você fala de estórias mais diretas. Se direto for alguma simplificação, eu sou contra. Não acho que mastigar é a melhor alternativa para um obra. Acaba por nivelar tudo por baixo, seja o artista, a arte ou o leitor. Há uma pressão mercadológica pra que isso aconteça, mas basta olharmos para os lados pra ver que o resultado sempre vai ser mediocridade.
ResponderExcluirPorém se o direto quer dizer ir ao ponto, ou seja, ir frontalmente mesmo ao universo do Gavião, aí sim concordo. Acho que no fundo o que mais atrapalha essa fase do Johns são certos clichês dos quadrinhos de super-heróis que parece necessário enfiar a qualquer momento pra não se desfiliar do engessamento do gênero. Não sou contra o gênero, mas sou contra estagnação. Há como, e a história comprova, trabalhar o gênero de forma mais ou menos criativa. Johns talvez pudesse ter voado mais alto.
Abração, Alexandre.
Quando eu falo sobre histórias diretas, me refiro a tramas mais fluidas. Talvez o Gavião Negro seja o herói da DC com a cronologia mais confusa, o que se deve às variadas encarnações que o personagem teve. Acho que limpar o histórico do personagem, retirando partes confusas e desnecessárias seria um bom começo.
ResponderExcluirEntendo @Raphael Cavalcante. Onde corrigir é sempre uma pergunta recorrente, ainda mais numa obra tão vasta como o universo Dc. Porém a franca sensação que tenho é que sempre acabam cortando fora aquilo que havia de mais rico e mantendo uma série de supostas obrigações de linguagem, gênero, história, etc, sem lá grande necessidade pra estória por si.
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