segunda-feira, junho 10, 2013

Retalhos parte 2 - de uma vida sagrada

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O primeiro encontro de Craig com Raina se dá por um reflexo. Craig, esse adolescente religioso, porém pouco confortável aos acampamentos de férias da igreja, vê em Raina o mesmo desajuste àquele mundo. Um amizade começa, depois vem a troca de cartas, alguns telefonemas, e por fim a sua estada por duas semanas na casa dos pais dela. Um típico namorico adolescente - só que para Craig, um problema existencial a superar.

Como havia dito na primeira parte, Craig vivia em conflito pela vontade de inação de seu corpo (sempre pecaminoso, segundo sua crença), com o desejo natural de se expressar, se afirmar, deixar um traço no mundo. Sua proximidade com Raina é o que torna claro esse conflito. Pois, apesar de não conseguir desenhar mais nada, sentindo-se culpado por querer deixar algo de si para o mundo, é a paixonite por ela que faz Craig voltar a rabiscar - ela é sua devoção, sua musa. Um sentimento confuso, porém uma válvula de escape. Sua presença no mundo, suas ações e o seu corpo, embora ainda desconfortáveis, ao menos ganhavam a aura do artesão devotado à arte sacra. Raina é divina diante do amor de Craig.

quarta-feira, junho 05, 2013

Retalhos parte 1 - de uma vontade de inação

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É de um prazer raro quando uma estória passa pela gente e no final sentimos que não somos mais os mesmos. Algo morreu, algo viveu. Com o cinema e a literatura cada um tem alguma história a respeito - e com os quadrinhos, espero eu, também. A experiência que agora compartilho é a de ter lido, duas vezes, Retalhos, de Craig Thompson.

Publicada originalmente nos EUA em 2003, a HQ autobiográfica de quase 600 páginas narra a infância e a adolescência de Craig. Bastante premiada, Retalhos segue a linha das tantas biografias que desde Maus, de Art Spiegelman, passando por Palestina, de Joe Sacco, e Persépolis, de Marjane Satrapi, gozam de um grande prestígio. A biografia em quadrinhos das últimas duas décadas é a filha bem-sucedida entre os quadrinhos undergrounds, - afinal Robert Crumb e Harvey Pekar décadas antes já escangalhavam sua vida nas HQs -, com o mercado de graphic novels, nome elegante para poder vender quadrinhos de “qualidade literária” em livrarias - uma estratégia consagrada a Will Eisner.

sexta-feira, maio 31, 2013

Arkham City - A Dualidade do Homem

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Nos quadrinhos são muitas as estórias que exploram a relação do super-herói com o seu arqui-inimigo. Alguns desses embates conseguiram superar o surrado “bem contra o mal” para suscitar questões mais profundas sobre vida, política, sociedade e valores. Não há como deixar de lembrar grandes diálogos entre Charles Xavier e Magneto, Superman e Lex Luthor, Thor e Loki, e sobretudo, Batman e Coringa. Melhor ainda é quando vemos esse clássico antagonismo potencializado não somente nos quadrinhos, mas também em outras mídias, a ponto de mostrar algo novo ou incomum. Eis o caso do game Arkham City.

quarta-feira, maio 22, 2013

X-9 e as Mulheres

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Não precisa de muito para que o encontro do escritor Dashiell Hammett e do quadrinista Alex Raymond fosse algo notável. Criado para rivalizar com o Dick Tracy de Chester Gould, surge o Agente Secreto X-9 em 1934, capitaneado por William Hearst, o magnata da imprensa (eterno Cidadão Kane) e dono do King Features Syndicate. Tirinha policial com forte pegada noir. Apesar da força publicitária dos talentosos nomes envolvidos e, de fato, a tira possuir boa qualidade, X-9 não conseguiu destronar Dick Tracy e nem segurar por muito tempo seus astros. 

É dito que Hammett tinha problemas estruturais com o formato das tirinhas, ele não sabia lidar direito com as informações distribuídas diariamente ao longo de meses, sem falar nos diálogos afiados que as vezes não cabiam num balão. Também é considerado que ele era um tanto relaxado com o processo, o que parece proceder se constatarmos a sucessão de clichês que ele despeja em X-9. Em poucos meses Hammett acabou sendo desligado, sobrando tudo para Alex Raymond que segurou as pontas com outros roteiristas e desenhistas até 1935 quando também pulou fora. Contudo o personagem prosperou até 1996 quando finalmente deixaram de ser produzidas novas tirinhas.